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Tem uma seda aí?

Tem uma seda aí?


O Kumbh Mela é o festival religioso mais antigo da história da humanidade, acontece na Índia, e se alterna nas cidades sagradas de Allahabad, Ujjain, Hardiwar e Nassik, em ciclos que se repetem a cada doze anos.

Por Arthur Verissimo

Sigo o frenesi coletivo de milhões de pessoas deslizando pela espinha dorsal do Kumbh Mela na India. Mas… kumb o quê?

O Kumbh Mela é o festival religioso mais antigo da história da humanidade, acontece na Índia, e se alterna nas cidades sagradas de Allahabad, Ujjain, Hardiwar e Nassik, em ciclos que se repetem a cada doze anos.

Naquele dia, um imenso caleidoscópio de criaturas com suas crenças e tradições emolduravam o cenário.

À medida em que penetrava as entranhas da Torre de Babel, cores, fogueiras, megafones, camelos, tendas, elefantes, tridentes, macacos e seres de outras eras explodiam diante dos sentidos. Uma mega-rave atemporal.

No acampamento dos discípulos de Shiva, o perfume e o aroma da cannabis e do charas misturavam-se ao odor de estrume, incenso, dal makhani, suor e outras substâncias. Milhares de Saddhus, fervendo, passando cinzas no corpo, conversando, fumando no chillum, comendo, dichavando, tossindo, rezando, meditando – e abençoando fiéis e devotos.

O cenário é impactante e revelador. No zumzum de palavras e idiomas, escuto um mantra das antigas: “Tem um seda ai ?”.

Olhei pros lados e deduzi: tô delirando. Chapado em alta voltagem. Desorientado. Como assim, em português?

Rastreei e no meio do turbilhão, identifiquei um saddhu que tava de olho nos meus movimentos. Me chamou e mantrou novamente: “Tem um seda aí? Vamos enrolar um banza!”. Caímos na gargalhada.

Com seus monumentais dreadlocks, Sri Shankar Giri chegou junto. Apresentei a seda para o simpático sadhu. À medida que enrolava e acendia um superbeque cônico, ele me contou sua história.

Nasceu em Serra Talhada, interior de Pernambuco e, desde a adolescência, cultivava sua maconha em Cabrobró.

Jovenzinho descobriu os ensinamentos do Bhagadav Gita e do Ramayana. Se desgarrou do Brasil e foi para Índia nos anos 80 na cola do guru Baghawan Sri Rajneesh (o Osho!).

Foi seu discípulo por cinco anos. Aprendeu muitas técnicas de meditação e decidiu peregrinar. Vive atualmente nas cavernas de Thapovam, no Himalaia, acima de Gangotri, nascente do rio Ganges.

Desde então sempre está presente nos Khumbha Mela de Allahabad e Haridwar.

Voltei a India em outras ocasiões e reencontrei o sadhu pernambucano Sri Shankar em duas situações inusitadas e nestes encontros lhe ofereci sedas de boa qualidade.

Quem já não ficou desprovido de seda e teve que improvisar com papéis de origem duvidosa, sedanapos e outras aberrações?

Vocês, fumadores de opinião, devem se virar e ter suas preferências de seda. Existe uma imensa variedade de marcas e tipos, tradicionalmente os papéis são derivados do arroz, cânhamo, linho e celulose.

Diz a lenda que o papel foi levado da China para Espanha pelos mouros que por sua vez, aprenderam a técnica de fabricação com os chineses.

No início do século 17 uma empresa espanhola fabricante de papéis desenvolveu o primeiríssimo papel para enrolar do jeito como conhecemos hoje.

Conhecidas como mortalhas, eram confeccionadas em folhas gigantes e fizeram um imenso sucesso. Fumacê geral! E como um tsunami, o mundo começou a fumar.

Tem uma seda aí?

Sinta a brisa!

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