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Tatoos em Bornéu

Tatoos em Bornéu


O avião sobrevoava o Mar do Sul da China em direção a Kuching, capital dos estado de Sarawak na Malásia. Para viajantes, antropólogos, expedicionários e tatuadores, a região é a ilha da fantasia.

Por Arthur Verissimo

Um banquete generoso para experiências inusitadas. Meu destino é um ponto na imensa ilha de Bornéu, a terceira maior do planeta. Seu território é dividido entre Malásia, Indonésia e o enigmático sultanato de Brunei. Iria passar duas semanas na ilha para conhecer os lendários “headhunters” (caçadores de cabeça) e suas tatuagens fascinantes. No ano anterior havia recebido um convite para conhecer a convenção de tatuagem tribal de Bornéu. Organizei com antecedência península e lá estava em Damai, distante 35 quilômetros de Kuching.

A curiosidade borbulhava por todos os poros e sentidos. Minha intenção era aproveitar a estadia e percorrer a ilha para conhecer sua natureza exuberante. A primeira excursão foi visitar o Parque Nacional de Bako. O Parque é selva para Mogli nenhum botar defeito, com plantas carnívoras e insetos do período devoniano. Em suas entranhas, vive o raríssimo, Macaco Proboscius narigudo (Nasalis larvatus). O macho esta sempre com sua genitália em riste boa parte do dia. E a fêmea por sua vez, instiga o parceiro para coitos ininterruptos.

Estava focado em conhecer as tribos ancestrais e suas técnicas de tatuagem tradicional. Existem dezenas de grupos étnicos em Bornéu, sendo os mais conhecidos os: kayan, punans, dayak, ibans, orangs ulus, quênias, bidayuhs e kelabits.

Todas estas etnias preservam suas tradições, culinária, arquitetura, danças, hábitos e, sobretudo, a arte da tatuagem.

Os Ibans e Dayaks realizam designs simétricos. Todas as tatoos são feitas nas partes centrais do corpo, sempre desenhadas em pares que, segundo as divindades e ancestrais, equilibram e balanceiam o corpo e espírito do cidadão. Os desenhos estão em absoluta conexão com os reinos vegetal e animal. Caranguejos, lagostas, sapos, flores, morcegos, escorpiões, insetos, cavalos marinhos e as famosas Bunga Terung – clássicas flores negras (beringelas) tatuadas nos ombros, braços, peitos e costas.

As Bunga Terung para os Dayaks, são tatuadas para as grandes jornadas na vida e como alimento para a fome dos espíritos tutelares. As tatuagens entre os quênias e orangs ulus, possuem como marca registrada tatuagens abstratas em zigue-zague pelos braços das mulheres.

Durante a convenção tatuadores de diversas partes do mundo estiveram presentes: Johnny “Two Thums” dois dedões, de Cingapura; Leo Zuleta, da Califórnia; o incrível Tin Tin da França; Hori Hito, do Japão; os amigos Hercoly Rocha e Andre Meyer do Brasil; o chefe tribal samoano Su’a Saluape e o casca grossa, Maori, Beano “Lone Wolf “, da Nova Zelândia. Lone Wolf utiliza uma técnica ancestral com pedras de jade para tatuar, e foi um dos criadores de cenários para a série “Senhor dos Anéis”.

Aproveitei o momento e entreguei minha pele para uma belíssima tatuagem maori, realizada pela lenda viva.

Após a convenção, me embrenhei pela floresta para conhecer as Longhouses dos Ibans. Eles vivem nestas imensas casas comunais com muitas famílias. Algumas chegam a ter mais de 150 pessoas. As longhouses são construídas na margem dos rios, sobre palafitas e sua estrutura é na maioria das vezes de madeira. O habitat mescla o período neolítico com os tempos modernos. Em seu interior presenciei uma imensidão de televisores e aparelhos eletrodomésticos de última geração com as tradicionalíssimas cabecinhas cortadas de outras tribos. Pois é, eles são headhunters.

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