Na brisa do Níquel Náusea - Bem Bolado Brasil
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Na brisa do Níquel Náusea

Na brisa do Níquel Náusea


Por Bem Bolado Brasil

Fernando Gonsales, das tiras Níquel Náusea, relembra desenhos e trampos feitos com Glauco

Nascido numa família de 814 irmãos, o Níquel Náusea mete o louco direto. Em sua primeira aparição, ele enfia o dedo na fuça do Mickey Mouse, o camundongo fofinho da gringa, só para dizer: “eu sou uma ratazana, mesmo!” Com ele, o papo é reto — assim como com seu criador.

“Eu queria fazer um personagem sem apelo ecológico. Ninguém levanta bandeira da preservação dos ratos!”, declara Fernando Gonsales, o cara por trás do personagem Níquel Náusea, o maior fanfarrão dos esgotos deste país.

Curiosamente, Gonsales é veterinário e biólogo, mas abandonou a profissão após uma decepção. “Trabalhei um ano no projeto ambiental da Usina de Tucuruí, no Pará, mas senti que era um truque. É impossível ter uma usina e não destruir a vida animal.”

Desde 1985, Gonsales publica uma tira diária no jornal Folha de S. Paulo com as aventuras do sarcástico bichinho. Suas tiradas que arrancam sorrisos até dos leitores mais durões. Parça da barata Fliti — uma “barata” macho, ou seja, um barato movido a baforar inseticida — a duplinha causa muito nos rolês.

A mudança de trampo rolou após vencer um concurso para novos desenhistas no jornal. E foi a partir deste ponto de virada que o jovem biólogo se viu ao lado do cartunista Glauco. “Quando eu cheguei na Folha, Glauco já estava por lá, sempre bem humorado. Lembro que ele me convenceu a não desenhar mais um cachorro de personagem, pois era muito fofo. Concordei e assumo: meu humor é afeito às ratazanas”, brinca.

Trabalhando com Glauco

Glauco era famoso por levar as tarefas de um jeito “suave”, o que causava algumas dores de cabeça. “Ele era muito gente fina, gostava de beber uma breja no bar vizinho e rolava de atrasar um pouco as entregas. Já rolou de recortarem tirinhas antigas e colarem em outra ordem para soar como ‘tirinha inédita’”, revela.

Mas tudo mudou após a entrada de Glauco na religião daimista. “Foi ótimo, ele precisava focar. Trocou a bebida pelo pito e levava o trampo numa energia ótima”, relembra Gonsales.

Além da parceria, ambos foram roteiristas da extinta TV Colosso, em que bonecos em formato de cachorro viviam loucas aventuras numa emissora de televisão nos anos 90. “Ninguém gostava de fazer o texto dos bonecos grandões, como o JF e a Priscila, pois tinham pouca mobilidade. Logo, não dava para pirar nas histórias. Todo mundo era amarradão no Gilmar e os fantoches menores, que podiam voar e outras doideiras”, explica.

Questionado sobre os personagens do Glauco, declara: “Eu imagino que Uzmano seriam uns meninos da quebrada superinvocados. Mas eu não saberia ir muito além disso. Fato é que a obra dele parece inovadora e contemporânea até hoje, pois brinca com sentimentos universais”.